Quando não se sabe para onde ir, qualquer caminho serve...



A frase que intitula o texto nos traz a um tema gigante e extremamente abundante, que serve de pano pra manga de diversas discussões, mas quero abordar uma fatia bastante estreita da lacuna que se abre, a dificuldade apresentada por profissionais que compõem as bases das pirâmides organizacionais têm em dar foco no desenvolvimento de suas carreiras.
Não é tão raro vermos profissionais nas bases das pirâmides organizacionais com um conjunto de competências interessantes e uma série de potenciais a serem desenvolvidos que, se bem conduzidos, com investimentos reais e concretos, formariam profissionais mais especializados bastante diferenciados.
Também não é incomum ser surpreendido por decisões surpreendentes que esses profissionais tomam que promovem verdadeiras revoluções nos ainda frágeis e turvos caminhos de carreira que estavam começando a se construirem.
Para exemplificar, trago à tona o caso de uma profissional que conheço e que, de forma surpreendente, fez uma movimentação drásticas e desastrosa em sua carreira. Na casa dos seus 25 anos, a profissional em questão diferencia-se por competências difíceis de serem encontradas no mercado em profissionais tão jovens, como uma verdadeira capacidade de organização, facilidade de construção de relacionamentos maduros, e amplo controle de crises.
Vamos chamá-la de Joana. Joana ocupava uma posição na base de uma área de RH/DP, nível Assistente, já tendo passado pelos níveis de Auxiliar e Auxiliar SR, com desafios, responsabilidades e remuneração próximas de um cargo de Analista JR. Por relacionamento com a gestora, descobri que esta pessoa estava sendo muito bem avaliada pela gestão, inclusive, estavam estudando a promoção da mesma para mais desafios, com maiores responsabilidades e maiores ganhos também.
Deve ser possível imaginar a surpresa da Gestora quando Joana, em uma quarta-feira cinzenta, solicita seu desligamento imediato da posição, pois iria ocupar um cargo de Recepcionista em uma empresa de prestação de serviços terceirizados de segurança. Além da clara redução de responsabilidades e a quase total eliminação dos caminhos de evolução de carreira que vinha traçando, outro ponto chamou a atenção da Gestora, o salário era o mesmo.
Então, o que deve ter motivado Joana a evoluir com tal mudança? Mesmo sabendo que seria promovida no mês seguinte, com histórico de bom relacionamento com a gestão, claras oportunidades de carreira no médio e longo prazo e feedbacks positivos constantes sobre sua evolução, Joana escolheu ir para outra direção.
Conversando com Joana, ficou claro que nem a promoção, nem a carreira futura ou mesmo as novas responsabilidades exerceram força de retenção na jovem profissional, pois no fundo, para ela isso não tinha a menor importância. Pelo contrário, em silêncio, Joana achava que era “explorada” pela gestão, que fazia muito mais do que era paga para fazer.
Frente a este cenário, ao descobrir a vaga de recepcionista no escritório de uma amiga, não hesitou e solicitou a indicação. Um dos fatores apresentados como diferencial era que no outro trabalho o Youtube era desbloqueado e dava para ficar mais tempo no Facebook, além disso, não existia hora extra, pois a recepção fechava pontualmente as 17h00.
Por mais estranho que me pareça, esses fatores realmente tiveram importância na decisão de Joana, que não consegue pensar no amanhã, que vê a relação de trabalho essencialmente como uma forma de exploração do seu tempo, um mal necessário. Logo, a busca pela minimização do sofrimento de trabalhar a fizeram optar pela “excelente” oportunidades que lhe proveria o mesmo rendimento com o mínimo de esforço.
No fundo, Joana nunca quis trabalhar no RH, mas foi o que apareceu à época. E com o passar de dois longos anos, ela não conseguiu evoluir para uma visão de longo prazo da sua carreira nesta área.
Entretanto, te pergunto, amigo leitor da área de RH: Será que a culpa pela “sábia” decisão é só de Joana? Será que a gestora não tem uma parcela de culpa, por não ter diagnosticado isso antes? Será que a família de Joana não tem uma parcela de culpa, por incutir nela esse péssimo vínculo com o trabalho? Ou as instituições de ensino, que em nada apresentam instrumentos de planejamento aos nossos jovens?
Enfim, não consigo deixar de julgar que a culpa é de todos nós, da família dela, da gestora, das professoras que teve, da amiga. Talvez, a mais inocente da história, seja Joana, que sequer percebeu a carreira de sua vida passando à frente de seus olhos...